Buddy X em Mina Du Lixo

Numa parceria entre Buddy X e Roberto Oliveira, nasceu a ídéia de se fazer uma letra que retratasse uma história verídica de uma pessoa que chegou ao fundo do poço, devido as drogas e foi resgatada pelo amor dos pais. Mina Du Lixo foi escrita durante a Oficina de Rimas ministrada por Buddy X no SESC-Santos entre os dias 03/03 à 28/04 de 2016! Roberto Oliveira (68 anos) foi um dos alunos do Workshop. Participação de Vanessa Esperança (Também aluna da Oficina de Rimas).

“O dia em que o Hip Hop ganhou de Holywood!”

Ano: 1985 Cidade: Campo Grande-MS Local: Estação Rodoviária de Campo Grande! Era um sábado e pra variar fazia um calor infernal e como não tínhamos absolutamente nada pra fazer naquela tarde combinamos nos encontrar no centro da cidade. Cada um de nós levaria uma coisa: Um papelão de caixa de geladeira, uma cera que passaríamos nesse papelão pra ficar liso, blusas de abrigos para que deslizássemos sobre ela, toucas, telinha e é claro: O Box (Som)! Claro que as pilhas estavam quase no fim… Mas como ás vezes acontecia, pessoas nos viam arrumavam uns trocados e com isso compraríamos novas pilhas! Como combinado nos encontramos, tudo estava perfeito! Ou melhor, quase perfeito a não ser por um pequeno detalhe: A cidade estava deserta! Não havia uma viva’alma! E pra gente que passa treinando, ensaiando novos passos, se ralando no chão para enfim chegar o momento de nos exibirmos não existe nada pior do que ausência de público. A gente até dança, mas… é como dançar com a irmã, ou seja: Não tem graça! E aí o que fazer então? Voltar? Ir embora pra casa e dormir? Foi quando alguém sugeriu a idéia: Vamos pra rodoviária? Nós nunca tínhamos ido lá mesmo, quem sabe haveria pessoas por lá! E dito e feito descemos a Rua Barão do Rio Branco e fomos até a rodoviária. Olhamos nas plataformas de embarque e só tinha alguns gatos pingados, parecia realmente que não era nosso dia… Resolvemos então subir para o 2º andar da rodoviária e pra nossa surpresa tinha bastante gente na fila do cinema, porque pra falar a verdade naquele cinema da rodoviária nunca tinha ninguém! Acho que só passava filme ruim! E eu não me recordo qual filme estava sendo exibido eu só me lembro que tava assim de gente! Finalmente a nossa sorte estava mudando! Abrimos uma roda, ligamos o Box e apresentamos nossas armas… Giro de costas, caranguejeira, giro de cabeça, moinho de vento, giro de mão, eletric boogie, espelho! Lembro até que arrumamos dinheiro pras pilhas e ainda sobrou! Realmente a sorte tinha mudado, e todos estavam se divertindo!… Eu disse todos? Bem… não foi bem assim… Eu estava no meio da roda fazendo um breaking aéreo depois fiz um espelho com mímica, eu modéstia a parte estava arrasando com meus óculos e luvas coloridas, e o povo aplaudia a nova dança com entusiasmo! Quando de repente senti algo batendo em minhas costas, logo pensei ser algum dos nossos que estava louco pra dançar e queria que eu saísse logo do meio da roda… Fiz-me de desentendido e ignorei-o, continuando a dançar numa boa… Foi quando ouvi uma voz em tom grave me dizer: – Você é surdo? Já disse pra sair fora! Foi aí que me virei e vi que eram dois policiais militares e mais um segurança da rodoviária! E ele continuou dizendo: – Se não saírem agora eu vou prender todo mundo! Tentei argumentar, mas foram irredutíveis e como não portávamos documentos resolvemos ir embora… Depois nós entendemos o que havia acontecido: O filme no cinema já tinha dado a hora de começar, porém o povo não entrava e então o dono do cine estava ficando desesperado e chamou a polícia, enquanto saíamos o povo nos aplaudia e nos dava parabéns e ainda me lembro que sob os olhares quase incrédulos dos policiais ainda arrumamos coragem de agradecer os apupos do público com tchauzinhos e beijos pra galera! Saímos como heróis e estávamos orgulhosos, pois naquele dia vencemos Holywood com seus grandes filmes, naquele dia cada um de nós saiu com um brilho no olhar, naquele momento sabíamos que éramos guerreiros, artistas de rua, e que o Hip Hop ainda iria nos preparar pra uma guerra muito mais difícil, muito mais longa, onde muitos cairiam, onde muitos desistiriam por acharem que era só um modismo passageiro, mas que os verdadeiros ficariam, pois… Na Cultura Hip Hop… Só os fortes sobrevivem!…

Alguém se habilita? – James Brown e Afrika Bambaataa podem te chamar de “Mestre”do Hip Hop !

Estive em uma reunião com entidades negras que me convidaram assim como a outros artistas, e estávamos lá para conversarmos sobre programação e horários dos shows relativos ao 20 de novembro (Como você sabe: Dia da Consciência Negra!). Pois bem, quando chegou a hora de nos apresentarmos um a um foi dizendo o seu nome, o que fazia e a qual entidade representava. Quando em dado momento uma mocinha que devia ter de 15 a no máximo 17 anos falou o seu nome e depois disse: “- Sou professora de Hip Hop!”, aquilo me incomodou e confesso que por alguns minutos até chegar a minha vez na apresentação, em minha mente se apresentou um dilema: Ou ficava quieto e já que a mocinha estava lá para ajudar, eu simplesmente me omitisse e não transformasse em público meu desconforto? Ou colocava pra fora o meu pensamento?… Quando chegou a minha vez eu disse: “- Meu nome é Buddy X, sou rapper do grupo Razão Original e realizo o Projeto Podicrêr! Em escolas e comunidades carentes. Daí me virei pra mocinha e perguntei-lhe o seu nome e disse-lhe: “- Você diz que é “professora” de Hip Hop não é?” Ao que ela me respondeu positivamente! Foi aí que eu disse que esse negócio de “professor” de Hip Hop não existia, foi então que ela respondeu: “- Claro que existe, pois eu sei que são 4 elementos: o “Break”, o DJ, o Rap e o Grafitti e….” Eu a interrompi dizendo que isso era coisa da mídia e que qualquer um saberia falar sobre os 4 elementos, e voltei a afirmar: “ – Professor de Hip Hop não existe!” Daí ela se calou e ficou sem ter o que responder… você que está lendo pode até pensar: Esse cara é cheio de querer! Mas pessoal, é exatamente o contrário: Eu já passei por tantas coisas, já fui enganado por empresários, já dormi na rua pra poder fazer show, já viajei em péssimas condições, fiz show morrendo de fome no palco com a barriga até doendo com a casa lotada e o contratante sumiu com nossa grana e até a mulher do hotel se recusando a liberar nossas coisas… e tudo isso sabe por quê? Porque eu amo o Hip Hop! E assim como eu quantos não passaram por piores situações do que estas? O Hip Hop é minha vida! E aí eu vejo na TV os “professores” de Hip Hop! E alguns desses viram professores de axé no programa seguinte ou em outra emissora… Se você pensa o contrário posso até respeitar sua opinião, e talvez até você me ache cabeça dura, mas não consigo concordar, pois ensinar uns passinhos mixurucas e nem usar a verdadeira dança de rua: o Breaking, e dizer que é “professor” de Hip Hop… Ou eu, que já tô véinho na Cultura sou muito burro pois não me acho “professor” de nada! Ou essa turma de “professores” de Hip Hop são gênios! Nós que vivemos desde o início o “Movimento” Hip Hop, que depois se solidificou e se estabeleceu como Cultura Hip Hop (Movimento passa… mas a Cultura fica!), nunca nos denominamos “professores” de Hip Hop. Porém não sou intransigente e vou abrir uma exceção: Se você se achar “professor” de Hip Hop e quiser fazer eu engolir minhas idéias faz o seguinte: Domine o Breaking, o Grafitti, faça boas letras e seja um bom Rapper e detone nas Pickups! Além de conhecer toda a História do Hip Hop! Daí quem sabe eu posso tentar convencer tanto James Brown quanto Afrika Bambaataa a te chamar, não de professor, mas sim de “Mestre do Hip Hop”! Alguém se habilita?…

Amor de Mãe é complicado! (Se não fossem elas não haveria o Hip Hop)

Todo dia é dia para amar… Primeiro é um som… Um ruído… Sei lá… Depois eu reconheço a tua voz, que me acalma, me aquece e me da paz… Deitado em seu colo sentindo esse carinho que só você faz! Já nem me lembro mais quantas febres, quantos choros, quantas noites sem dormir, e a senhora não desgrudava de mim… Falar desse amor para mim é complicado, pois amor de Mãe é inigualável… Palavras são palavras e posso até dizer palavras todas lindas tipo: Mãe amo você! Mas você é diferente, não consigo explicar: Cada gesto, cada olhar, cada palavra sua me faz crescer, me dá força, me faz sonhar! Eu já disse que em seu jeito de amar, pelo menos nesse planeta, não existe nada igual, isso é fato mas… Não é ponto final! Parece não ter limite, pois a senhora por mim tem sempre mais para me ensinar, tem sempre mais para se doar! Às vezes por minha culpa você tem palavras duras é verdade, mas na maioria das vezes basta um olhar, basta um toque, basta um abraço, mas não basta um só beijo… Mãe! O que é ser Mãe?… Por mais que me fale, por mais que me explique, por mais boa vontade de me fazer entender, na verdade, nunca saberei plenamente… Sabe Mãe… Será que mereço tanto amor? Porque por mais que eu me esforce, por mais que eu tente nunca vou retribuir-lhe o que fez e fazes por mim… Ah!!! Sei que logo pensa: Não quero retribuição meu filho… Então veja Mãe: Até nesse momento em que lhe digo estas simples, porém sinceras palavras eu sinto ainda mais forte o seu amor por mim! Mesmo o dia Mamãe, em que a senhora não estiver mais ao meu lado, estará para sempre dentro de mim, sempre olhando por mim, até chegar o dia em que estarei ao seu lado novamente, sempre, sempre contando com seu amor, pois eu sou o fruto dele… Usei várias palavras para lhe dizer um pouco do que sei e ainda assim não consegui explicar este seu amor! Será que sou um incapaz? Será que a nós filhos o que falta é sensibilidade? Depois de muito refletir eu concluí que não se pode explicar o inexplicável, e que nós é que adoramos complicar as coisas! Um grande beijo no coração da minha e de todas as Mamães e digo que agora finalmente eu entendi: Maria Mãe de Jesus é amor! Então… Mãe? É Mãe!… Obrigado do fundo do coração a todas as Mamães! (Sem elas também não conheceríamos a Cultura Hip Hop!…)

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